Há um erro que os poderes longos cometem demasiadas vezes: começam a acreditar que vencer eleições é o mesmo que vencer o debate sobre o futuro.

Não é.

Ganhar eleições dá legitimidade para governar. Não dá autoridade moral exclusiva sobre uma terra. Não transforma quem discorda em irrelevante. E muito menos converte derrotas da oposição numa prova automática de excelência governativa.

Porque há uma pergunta que continua sem resposta:

Lousada está tão bem como poderia estar?

Não melhor do que há 20 ou 30 anos. Isso seria um critério demasiado pequeno para um concelho cheio de potencial. A pergunta séria é outra: estamos ao nível da nossa ambição?

Há décadas que ouvimos a mesma narrativa: estabilidade, continuidade, serenidade.

Mas estabilidade sem ambição pode tornar-se acomodação.

E continuidade sem exigência pode tornar-se rotina.

Há investimento? Sim.

Há crescimento? Sim.

Mas há visão suficientemente ousada para o próximo salto? Há capacidade para pensar Lousada para os próximos 20 anos, ou apenas competência para administrar os próximos quatro?

Esta é a diferença entre governar e liderar.

O problema dos poderes longos raramente começa na incompetência. Começa quando deixam de se questionar. Quando confundem crítica com incómodo. Quando passam a acreditar que o eleitorado lhes entregou não apenas a gestão do concelho — mas a propriedade moral da sua narrativa.

Quem ama uma terra não a diminui ao silêncio.

Questiona-a.

Exige mais.

Recusa a ideia confortável de que “assim já está bem”.

Porque Lousada não precisa apenas de continuar.

Precisa de crescer com mais ambição do que a rotina do poder permite imaginar.

As urnas decidem governos.

Não encerram debates.

E nenhuma maioria, por longa que seja, devia ter medo dessa ideia.

Há artigos que se escrevem para informar. Há artigos que se escrevem para convencer. E há artigos que se escrevem para intimidar – para sugerir, com toda a suavidade retórica possível, que quem não governa deve calar-se.

O artigo do presidente da Juventude Socialista de Lousada num órgão de comunicação social local é, inequivocamente, do terceiro tipo.

Mas há um problema. Intimida quem aceita ser intimidado.

Sobre os dez

A legitimidade de um deputado eleito não se mede pelo historial de vitórias do seu partido. Mede-se pelo mandato recebido nas urnas. Qualquer outra interpretação não é política – é arrogância com boa dicção.

Sobre as urnas que “não mentem”

Aceito o princípio sem reservas. Então leiamos o que as urnas disseram – todas as urnas, todos os números, sem seleccionar apenas o que serve o editorial.

O PS venceu as autárquicas de 2025 em Lousada. Legítimo, homologado, respeitado. Mas os números que contextualizam essa vitória dizem uma coisa muito diferente da narrativa triunfalista que tem sido construída.

Entre 2021 e 2025, o PS cresceu trinta votos em termos absolutos. Trinta – de 16.561 para 16.591. No mesmo período, mais de três mil lousadenses adicionais foram às urnas. Ou seja: milhares de novos votantes participaram e escolheram outra coisa. A quota eleitoral do PS caiu mais de seis pontos percentuais. E o partido elegeu menos um vereador do que em 2021.

Ganhou a eleição. Perdeu terreno, perdeu percentagem, perdeu um mandato.

Se as urnas não mentem – e não mentem – leiamos tudo o que elas disseram. Não apenas a linha que convém ao vencedor.

Sobre “azuis por fora, laranjas por dentro”

Esta frase revela mais sobre quem a escreve do que sobre quem pretende descrever.

A Iniciativa Liberal defende a redução da carga fiscal, a liberdade económica, a concorrência como motor de qualidade, o Estado como facilitador e não como produtor, a transparência como obrigação e não como favor. Em Lousada, temos apresentado propostas concretas, analisado documentação oficial com rigor e exigido prestação de contas fundamentada.

Pode discordar-se destas posições. É legítimo. Mas confundi-las com o PSD é ou ignorância ou desonestidade intelectual – e o presidente da JS não tem desculpa para nenhuma das duas.

O casamento que o artigo antecipa “daqui a quatro anos” é uma ficção conveniente. Serve para não ter de responder ao que a IL diz – basta rotulá-la e arquivá-la. É o truque mais velho da política: quando não tens argumentos para o conteúdo, ataca a embalagem.

Sobre o desconforto de ser avaliado

Chegamos ao núcleo do problema. E o núcleo não é político – é democrático.

Este artigo revela alguém que não está habituado a ser escrutinado. Que opera num ambiente político onde ganhar eleições é, na prática, sinónimo de governar sem prestação de contas efectiva. Onde a assembleia é uma formalidade, a oposição é ruído de fundo, e a maioria faz o que lhe apetece com a confortável convicção de que está autorizada a isso.

Não está. Nunca esteve.

A democracia não dá ao PS o direito de fazer o que lhe apetece. Dá-lhe o direito – e a obrigação – de ser avaliado. Todos os dias. Por nós. Pelos lousadenses. Pelas instituições. É exactamente para isso que a oposição existe. É exactamente para isso que a assembleia municipal existe. Não como decoração institucional, mas como mecanismo de controlo do poder. O mais fundamental de todos os mecanismos democráticos.

Quando um relatório de auditoria regista uma opinião qualificada sobre activos fixos tangíveis avaliados em 179,6 milhões de euros, quando a execução do investimento fica nos 68%, quando os custos com pessoal ultrapassam pela primeira vez metade da despesa corrente – perguntar sobre isso não é “construir a narrativa do abandono”. É fazer o trabalho para que fomos eleitos. É exactamente o escrutínio que a democracia exige e que, aparentemente, tanto incomoda.

O desconforto que esse escrutínio provoca é, aliás, o sinal mais claro de que está a funcionar.

Sobre o conceito de democracia que este artigo revela

Há uma visão da democracia que se limita à noite eleitoral. Que trata o voto como uma transferência de poder absoluto, como um cheque em branco, como uma autorização para governar sem ser questionado durante quatro anos. Que vê a oposição não como um pilar institucional, mas como um incómodo a gerir. Que confunde pluralidade com ameaça e escrutínio com sabotagem.

É um conceito de democracia pobre e perigoso. E, infelizmente, muito reconhecível no PS.

O artigo do responsável da JS não é uma defesa de Lousada. É uma defesa do conforto de governar sem ser avaliado. É tratar os lousadenses como eleitores passivos que escolhem de quatro em quatro anos e se calam no intervalo. É fazer deles parvos.

Os lousadenses merecem mais do que isso. E, como os números das urnas demonstram com clareza, estão cada vez mais a exigi-lo.

Sobre o “bom caminho” e a “narrativa do dormitório”

Lousada tem dinâmicas positivas. Reconhecê-lo não é fraqueza, mas sim honestidade. Nunca dissemos o contrário.

O que dissemos – e continuamos a dizer – é que o potencial de Lousada é maior do que aquilo que tem sido aproveitado. Que um território com a localização, os recursos e a massa crítica que Lousada tem merece uma visão económica estruturada, não apenas infraestrutura física e eventos. Que há escolhas estratégicas por fazer que não estão a ser feitas. Isso não é narrativa de abandono. É exigência de ambição.

A questão nunca foi se há investimento. A questão é sempre: está a ser bem aplicado? As prioridades são as correctas? Podia ser mais transparente? É precisamente essa a função da oposição – não destruir o que funciona, mas garantir que o que não funciona não se esconde debaixo do que funciona. E garantir que quem governa nunca se esqueça de que está a ser observado.

Isso é incómodo? Sim. É suposto ser.

A Iniciativa Liberal chegou a Lousada há seis meses. Não viemos pedir licença para existir. Não viemos aguardar a benevolência da maioria. Viemos fazer o que a democracia nos obriga a fazer: perguntar, analisar, propor e exigir respostas.

O presidente da JS pode não estar habituado a isso. Vai habituar-se.

Têm razão, no entanto, numa coisa: não é necessário gritar. Mas também não é necessário estar todos os dias a justificar a própria existência, a marcar presença no espaço público, a mostrar as obras – algumas onde nem sequer tem intervenção – nas redes sociais. A mostrar o fato novo em mais uma foto para a posteridade. Quem trabalha, trabalha. Quem governa bem, não precisa de o anunciar a toda a hora. Os resultados falam por si. E quando os resultados precisam de tanto ruído para serem ouvidos, talvez o problema seja exactamente esse.

Portugal exporta engenheiros como outrora exportava emigrantes para a França. A diferença é que agora têm doutoramento.Não é um fenómeno. É uma política.

Uma política não escrita, não deliberada, mas absolutamente consistente: formar os melhores, criar as condições para que partam, e depois lamentar nas conferências de inovação que “o país precisa de reter talento”. O ciclo repete-se há trinta anos com a regularidade de uma maré.

O que mudou é o que está em jogo.

Durante décadas, perder engenheiros civis para a Suíça ou médicos para o Reino Unido era um problema de desenvolvimento. Doía, mas era recuperável. O que está a acontecer agora é diferente em natureza, não apenas em escala. A inteligência artificial não é mais uma tecnologia entre outras. É a infraestrutura sobre a qual as próximas décadas de criação de valor vão assentar. Quem não participa na sua construção não fica parado: regride, porque os outros avançam.

Portugal não tem hoje nenhum laboratório de investigação em IA com relevância global. Tem portugueses em laboratórios relevantes. A distinção não é semântica. É a diferença entre possuir uma refinaria e trabalhar numa.

Quando se pergunta a decisores portugueses porque é que não existe em Portugal infraestrutura séria de computação para treino de modelos de IA, as respostas seguem sempre o mesmo padrão. Primeiro vem o inventário dos obstáculos: licenciamento, consumo de água, impacto no território, preocupações com a pegada energética. Depois vem o elogio à cautela: “temos de pensar bem antes de avançar”, “não podemos repetir os erros do passado”, “é preciso fazer as coisas de forma sustentável”. Por fim, o remate invariável: “não há condições”.Não há condições. A frase mais repetida e mais cara da história económica portuguesa.

Portugal tem a eletricidade mais barata e mais verde da Europa ocidental em vários trimestres do ano. Tem fibra ótica enterrada até aldeias que perderam metade da população. Tem engenheiros formados em universidades que consistentemente aparecem bem posicionadas em rankings europeus de ciências e engenharia. Tem um fuso horário que cobre simultaneamente manhã na costa leste americana e tarde na Europa central. Tem um custo de construção de infraestrutura abaixo da média europeia.E não tem condições.

O lítio é o caso de estudo mais revelador.

Portugal tem uma das maiores reservas de lítio da Europa, mineral sem o qual a transição energética que tanto se invoca não existe fisicamente. Durante anos o debate público em torno da extração foi dominado por uma aliança tácita entre ambientalismo de protesto, NIMBY local e inércia burocrática.

O resultado: o lítio continua no subsolo, extraímos dependência do exterior, e importamos baterias fabricadas com minerais tirados de outros países com legislação ambiental e laboral que não resiste a dois minutos de escrutínio.Protegemos o território. Exportámos a pegada. E ficámos na fotografia a sorrir com o certificado de país verde.

É o truque. Sempre o mesmo truque.

Deslocamos o custo, não o eliminamos. E contabilizamos apenas o que fica cá.A questão não é ambiental. A questão é civilizacional.Há uma ideia instalada no mainstream político e mediático português. Atravessa partidos, geração, e grau académico, segundo a qual crescer depressa é arriscado, escalar é suspeito, e ambição desmedida é um defeito de caráter. O empreendedor bem-sucedido é visto com a ligeira desconfiança reservada a quem não jogou segundo as regras. A empresa que cresce até precisar de sair do país para se financiar é uma história de fracasso do ecossistema, contada como se fosse uma fatalidade geológica.

Não é uma fatalidade. É uma escolha.

Renovada a cada Orçamento de Estado, a cada processo de licenciamento que dura o dobro do prazo legal, a cada proposta de simplificação que morre em consulta pública, a cada jovem investigador que recebe uma proposta de Amesterdão e faz as contas.

As contas são simples e brutais.Um engenheiro de machine learning com cinco anos de experiência, a trabalhar em Lisboa para uma empresa séria, recebe um salário que em Londres ou Berlim seria considerado de entrada de carreira. Não porque as empresas portuguesas não queiram pagar mais. Mas porque a estrutura fiscal sobre o trabalho qualificado em Portugal torna qualquer tentativa de competir salarialmente com o exterior num exercício de aritmética deprimente. O Esåtado captura uma fracção do valor produzido que desincentiva sistematicamente quem mais valor produz.Não é ideologia. São os números.E depois estranhamos a fuga de cérebros como se fosse uma catástrofe natural.A janela para Portugal ser participante ativo na construção da infraestrutura de IA não é ilimitada. As decisões que definem quem treina modelos, quem possui os dados, quem controla a infraestrutura de computação, estão a ser tomadas agora. Não daqui a dez anos.

Daqui a dez anos haverá um mapa consolidado. Haverá países que produziram e países que consomem. Haverá laboratórios com décadas de vantagem acumulada e haverá mercados cativos. Portugal está, neste momento, a escolher em que coluna quer aparecer. Não com declarações, mas com aquilo que faz e com aquilo que consistentemente recusa fazer.

A escolha por omissão também é uma escolha.

Não precisamos de ser os Estados Unidos. Não precisamos sequer de ser a Alemanha. Precisamos de parar de confundir prudência com paralisia, e de chamar às coisas pelos nomes certos.Desinvestir em infraestrutura tecnológica não é uma política ambiental. É uma política de dependência.

Exportar talento formado com dinheiro público não é uma fatalidade. É o resultado previsível de um conjunto de escolhas.E “não há condições” não é uma análise. É uma rendição antecipada, formulada de forma elegante por pessoas que não têm de pagar o preço dela.

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem para criar emprego qualificado e reter os jovens que aqui crescem. Recebi três respostas. Merecem ser lidas com atenção, porque revelam muito mais do que pretendem.

A Vereadora Maria do Céu Rocha, responsável pelo pelouro da Economia e Investimento, disse: “Não é de todo mal que Lousada tenha estes talentos e que vão para fora.”

Está na gravação da Assembleia Municipal. Estará na acta. A teoria subjacente tem nome em economia: brain circulation. Os talentos saem, ganham experiência, regressam com valor acrescentado. É uma ideia legítima, quando o território cria condições activas de retorno. Quando há emprego qualificado à espera. Quando há um projecto de futuro que justifique o regresso.

Pergunto então: que condições criou Lousada para atrair de volta quem saiu? Que obstáculos removeu Lousada para que o investimento qualificado se instalasse? Que fricção burocrática eliminou? Que custos de contexto reduziu para tornar o território atractivo ao investimento privado?

Sem resposta a estas perguntas, a teoria da brain circulation é apenas uma forma elegante de dizer que não há estratégia. Também tem um nome em economia: brain drain. E a responsável pelo pelouro da Economia confirmou-o na frase seguinte: “Não interessa se vive em Lousada ou se vive no Porto.”

O território não importa. O município não tem papel. Se isto é a visão da responsável pela Economia do concelho, podíamos poupar o salário e extinguir o pelouro.

Anteciparei o argumento mais previsível: o problema do emprego qualificado não é municipal, é estrutural. É verdade, mas apenas em parte. Nenhum município resolve sozinho a geografia económica do país.

Mas este argumento tem um limite preciso: serve para explicar o passado, não para justificar a inacção no presente. E o que distingue os municípios que avançaram dos que ficam para trás não é a ausência do problema estrutural, mas sim a recusa em o aceitar como desculpa permanente.

O Fundão tinha o problema estrutural em dose tripla: interior profundo, sem universidade, sem cluster industrial. Em 2013 decidiu parar de invocar as circunstâncias e apostou numa estratégia deliberada de captação de investimento qualificado. Fê-lo removendo obstáculos, simplificando processos, tornando-se um território de baixa fricção para quem quisesse investir e instalar-se. O mercado fez o resto. Hoje tem mais de mil postos de trabalho em tecnologia, software e biotecnologia. Não porque o problema estrutural desapareceu, mas porque alguém decidiu trabalhar contra ele em vez de se resignar a ele.

Lousada tem condições que o Fundão nunca teve. Trinta e cinco minutos do Porto. O maior cluster automóvel do Norte a meia hora – Bosch, Simoldes, CEiiA, INESC TEC, MOBINOV, entre outros. Conectividade rodoviária e ferroviária. Uma centralidade com que nenhum outro concelho consegue competir. Jovens qualificados. E o Eurocircuito da Costilha.

Com tudo isto, fica uma pergunta no ar: porque razão as empresas de conhecimento não escolhem Lousada para se instalar? Porque é que os centros de competência ficam no Porto, em Braga, em Aveiro, e não aqui, que está mais perto de tudo do que a maioria?

O que o executivo faz com estas vantagens? Trata-as como cenário para eventos. E quando alguém propõe ir mais longe, invoca as circunstâncias do território como fatalidade geológica, em vez de as encarar como o desafio que uma política séria de redução de custos de contexto resolve. A orografia não é uma sentença. É uma condicionante que uma estratégia inteligente transforma em vantagem, apostando em economia do conhecimento, em serviços de valor acrescentado, em sectores que não precisam de vale plano para existir. Outros fizeram-no. Lousada tem melhores condições de partida do que a maioria.

O Senhor Presidente citou a captação de “empresas inovadoras na metalomecânica” como evidência de emprego qualificado. Não quero cair no erro oposto: a metalomecânica de precisão é um sector de alta complexidade, e as empresas líderes empregam engenheiros com salários competitivos. Isso tem valor real.

Mas há uma pergunta que o executivo não fez – e que é a única que importa para este debate: quantas dessas empresas instalaram em Lousada as suas funções de engenharia, de investigação e desenvolvimento, de gestão de produto? Ou instalaram cá a produção, e ficaram com o conhecimento noutro sítio?

Porque a diferença entre ter uma fábrica e ter um centro de competências é exactamente a diferença entre emprego industrial e emprego do conhecimento. O primeiro é valioso. O segundo é o que retém um investigador em engenharia, um gestor de produto, um especialista em automação. São mercados distintos, com lógicas distintas, e confundi-los – deliberadamente ou não – é a forma mais eficaz de não responder à pergunta.

Quando propus que o Eurocircuito da Costilha fosse posicionado como infraestrutura de testes de mobilidade autónoma, o Vereador do Desporto veio ao plenário dizer que o circuito não é especial, que há meia dúzia de semelhantes em Portugal, e que a condução autónoma já está resolvida na América.

Sobre a maturidade tecnológica, o Vereador tem razão num ponto estreito: os grandes operadores americanos – Waymo, Tesla – estão de facto avançados em condução autónoma de nível 5 em ambiente urbano. Mas há uma distinção que o Vereador não fez, e que é determinante: a Waymo circula em San Francisco com anos de mapeamento daquela cidade específica, em condições regulatórias americanas. Os construtores europeus – que operam sob regulamentação de homologação europeia, com processos de certificação europeus – têm pela frente anos de testes de desenvolvimento e validação. É para isso que o programa Horizon Europe CCAM existe. É para isso que financia infraestrutura de testes. Se o problema estivesse resolvido, o programa não existia – e a União Europeia não estava a injectar centenas de milhões neste sector.

O Vereador do Desporto usou o argumento certo para o mercado errado.

Concedo um ponto ao Vereador: existem em Portugal circuitos com características técnicas de superfície semelhantes. Tem razão nisso. Mas circuitos não são ilhas. O valor de uma infraestrutura de testes não é apenas técnico. É logístico, económico e de ecossistema. Um circuito no interior da Beira ou no Alentejo pode ter tarmac e terra. Não tem o Bosch a 30 minutos. Não tem o cluster da indústria automóvel a 40. Não tem o CEiiA, o MOBINOV e o INESC TEC na mesma hora de carro. Não está a 35 minutos do Porto, com ligação ferroviária. Não é cruzado por três auto-estradas. A vantagem competitiva da Costilha não está apenas nas características da pista, mas sim em tudo o que existe à sua volta. E isso, por definição, nenhum outro circuito português tem. É uma vantagem de território. É exactamente o tipo de vantagem que uma política séria de atracção de investimento privado devia estar a monetizar.

Sobre o argumento de que a obra ainda não está concluída: é verdade, e é um ponto legítimo. Mas preparar uma candidatura a Horizon Europe demora entre seis a doze meses. A obra e a candidatura são processos paralelos, não sequenciais. Começar hoje significa ter a candidatura pronta quando a infraestrutura estiver operacional. Esperar que a obra esteja concluída para começar a pensar na candidatura é garantir que se perde a janela. É exactamente o tipo de sequenciamento que distingue quem planeia do futuro de quem reage ao presente.

Entre 2017 e 2021 este município submeteu dezenas de candidaturas a programas europeus. Erasmus+ para desporto, inclusão, juventude, idosos. Interreg para resíduos. Projectos sobre florestas, hipoterapia, refugiados. Cada um com o seu mérito social genuíno.

Nenhum com o objectivo de criar condições para atrair emprego qualificado, atrair investimento, ou transformar a base económica do concelho.

Não é uma crítica à quantidade. É uma crítica à direcção. Um município que em quatro anos não submeteu uma única candidatura europeia orientada para o desenvolvimento económico não tem falta de energia – tem falta de ambição.

O Senhor Presidente apresentou o Centro de Formação do IEFP como pilar da estratégia de emprego qualificado. O município cedeu o terreno. É o contributo real e concreto de Lousada nesta infraestrutura. O que ali se ensina, que cursos se leccionam, que perfis se formam, isso é competência do IEFP, entidade nacional com programas definidos centralmente. O município não tem nem terá qualquer intervenção nos conteúdos. Não se sabe que estudo de mercado foi feito sobre as necessidades do tecido empresarial do Vale do Sousa. Não se sabe se os cursos correspondem ao que as empresas locais precisam ou ao catálogo padrão disponível em qualquer ponto do país.

Mas o problema mais profundo não é que o controlo seja municipal ou central. É que seja inteiramente estatal. As empresas que sabem o que precisam, que conhecem os perfis que faltam, as competências que procuram, não têm voz nos conteúdos. A formação profissional devia ser orientada pelo mercado, não pelo catálogo do Estado. E um executivo verdadeiramente comprometido com o desenvolvimento económico local devia estar a exigir exactamente isso, e não a apresentar a cessão de um terreno como estratégia.

Há uma coerência interna neste executivo que é necessário nomear claramente: o problema do emprego qualificado é estrutural, logo não há culpa local. Os jovens que saem podem voltar – logo a saída não é problema. Temos metalomecânica e o IEFP, logo estamos a fazer algo. A Costilha não é especial, logo não perdemos nada.

É um sistema fechado, impermeável a qualquer resultado. Nunca há falha, nunca há urgência, nunca há responsabilidade.

A questão não é se este executivo trabalha: trabalha, e em muitas áreas trabalha bem. A questão é se confunde actividade com política. E se percebe a diferença entre o Estado como produtor de serviços e eventos – papel que domina, e o Estado como facilitador das condições em que o mercado e as pessoas podem prosperar – papel que nunca assumiu.

Liberalismo não é pedir que o Estado faça mais. É pedir que faça menos nas coisas erradas, e que faça bem o que só o Estado pode fazer: remover obstáculos, reduzir fricção, criar previsibilidade para quem quer investir e construir.

Esse executivo nunca fez esta distinção. Faz festas. Financia eventos. Subsidia a sua empresa municipal. Candidata-se a fundos europeus para percursos pedestres. E depois invoca as circunstâncias para explicar porque os jovens partem.

Lousada tem melhores cartas do que qualquer um deles tinha. Localização, cluster automóvel à porta, infraestrutura, jovens qualificados. O que não tem é um executivo disposto a jogar essas cartas, porque jogar implica arriscar, e arriscar implica poder falhar, e falhar não combina com uma agenda cheia de prémios e festivais. O Fundão arriscou com menos. Aveiro arriscou com menos. Ficaram maiores. Lousada tem melhores cartas do que qualquer um deles tinha e ainda não jogou nenhuma.

Gerir bem o quotidiano é necessário. Não é suficiente. Um município que confunde gestão corrente com estratégia de futuro não está a governar. Está a administrar o presente enquanto hipoteca o amanhã.

Os nossos filhos merecem mais do que um dormitório bem gerido.

E o executivo de Lousada, mais do que estudos e planos, precisava talvez de ver um pouco mais de mundo. E um pouco menos de festas.

Há um tipo de poder que não se impõe pela força. Instala-se devagar, em silêncio, aproveitando a ausência de quem deveria questionar. É o poder da acomodação, e é o mais difícil de combater, porque não tem rosto, não tem decreto, não tem data de início.

Neste 25 de Abril, vale a pena pensar no que a liberdade exige além das datas comemorativas. Exige manutenção. Exige que haja alguém, em cada câmara municipal, em cada assembleia, em cada sala onde se decide com dinheiro público, disposto a perguntar: porquê? A quem? Com que fundamento? E a não aceitar o silêncio como resposta.

Em Lousada, durante anos, essa pergunta não foi feita com regularidade. Não por má-fé dos lousadenses. Mas porque quando uma força política governa sem oposição real durante tempo suficiente, forma-se um hábito. O hábito de não explicar. De tratar a informação como assunto interno. De confundir o município com o executivo, e o executivo com quem o lidera. De gerir como se o poder fosse uma propriedade adquirida, e não um mandato temporário concedido pelos cidadãos.

Esse hábito não é uma conspiração. É uma consequência natural e previsível do poder sem escrutínio. Aconteceu em Lousada. Acontece em dezenas de municípios portugueses. E acontecerá sempre que a oposição for fraca, ausente ou simplesmente acomodada.

Quando a Iniciativa Liberal tomou assento na Assembleia Municipal de Lousada, em Outubro de 2025, não chegou para perturbar. Chegou para fazer o que uma oposição democrática deve fazer: fiscalizar, questionar, exigir. Coisas simples. Coisas que a lei prevê, que a democracia exige, e que ao longo de anos foram tratadas como excepcionalidades incómodas.

O que encontrámos foi revelador. Não de corrupção: não temos provas disso e não é o que estamos a dizer. Mas de uma cultura de governação que habituou a não prestar contas porque ninguém as exigia. Obrigações legais tratadas como sugestões. Prazos que existem na lei mas que a câmara desconhece, ou finge desconhecer. Argumentos que mudam de forma consoante a conveniência do momento. Informação que circula internamente mas que não chega a quem tem o direito constitucional de a receber. Uma oposição que é recebida com surpresa, como se a sua existência fosse uma novidade inconveniente, e não uma peça essencial do sistema democrático.

Isto não se combate com escândalo. Combate-se com persistência, com rigor e com a disposição de continuar a fazer as mesmas perguntas até receber respostas.

Há quem pergunte: para quê? Para que serve fazer perguntas numa assembleia onde a maioria já está garantida? Para que serve exigir documentos que chegam sempre tarde, ou não chegam? Para que serve uma oposição de dois deputados numa sala de trinta e sete?

Serve para que os lousadenses saibam. Para que os números sejam lidos. Para que os contratos sejam questionados. Para que as despesas sejam explicadas. Para que os prazos legais sejam cumpridos. Ou, quando não são, para que fique registado que não foram. Para que o poder saiba que está a ser observado. Porque um poder observado comporta-se diferente de um poder que acredita ser invisível.

Serve, no fundo, para que Lousada pertença aos Lousadenses. Não a quem governa. Não a quem há mais tempo ocupa os lugares. Não a quem tem as chaves do edifício dos paços do concelho. Aos Lousadenses. Que pagam os impostos, que usam os serviços, que vivem as consequências das decisões tomadas naquela sala.

O 25 de Abril não se celebra. Pratica-se. Pratica-se cada vez que alguém exige uma resposta que não lhe querem dar. Cada vez que a lei é invocada contra quem a deveria cumprir e não cumpre. Cada vez que uma voz minoritária recusa ser silenciada por conveniência da maioria. Cada vez que um cidadão lê um mapa de execução orçamental e pergunta o que significa aquela rubrica com um milhão e oitocentos mil euros comprometidos em dois meses numa linha chamada “Outros Serviços”.

Não é muito. Mas é exactamente para isso que a democracia serve.

Lousada não tem donos. E nós cá estaremos para o lembrar.

O Plano de Recuperação e Resiliência é, à partida, uma boa notícia. Traz investimento, permite acelerar projectos e dá às autarquias uma margem que normalmente não têm. O problema não está no dinheiro. Está na forma como se decide gastá-lo.

Há uma ideia simples que qualquer pessoa percebe: construir acontece uma vez, manter acontece todos os dias. A obra tem um custo imediato. A conta fica para sempre, na manutenção, na electricidade, nos recursos humanos, nas reparações inevitáveis. No orçamento da autarquia. No bolso de todos nós.

Por isso, cada decisão de investimento não é apenas uma escolha sobre o que fazer. É também uma escolha sobre o que fica por fazer. E quando decidimos mal, não perdemos apenas dinheiro. Perdemos a oportunidade de resolver problemas reais.

Em Lousada, isso é visível de forma concreta. A escola de Pias com necessidades evidentes. Estradas em Nevogilde, Lustosa e no Torno em estado de degradação avançado. Lixeiras a céu aberto na serra de Campelos. Piscinas municipais com instalações longe do mínimo aceitável. Não é falta de investimento. É falta de critério.

Ao mesmo tempo, surgem projectos de utilidade questionável: estruturas que existem mas não são usadas, intervenções com visibilidade mas sem impacto, iniciativas que não geram actividade nem resolvem problemas, mas que geram custos permanentes.

A raiz do problema está nos incentivos. Quando estes estão alinhados com o curto prazo e com o calendário político, o resultado é sempre o mesmo. O que prevalece é o que tem visibilidade imediata, mesmo que crie encargos amanhã. A obra feita vale mais do que a obra útil. As decisões são tomadas para mostrar, não para durar.

Nem todo o investimento é igual. Um equipamento bem pensado pode atrair utilizadores, gerar receita e ajudar a suportar os seus próprios custos, libertando margem para investimentos de cariz social que, pela sua natureza, não geram retorno directo. Outros investimentos apenas existem. E quando assim é, passam a ser apenas mais uma despesa.

E aqui está o ponto que não pode ser ignorado: o PRR vai acabar. Não há no horizonte qualquer previsão de um novo ciclo de fundos europeus com esta dimensão. Quando isso acontecer, as autarquias ficam entregues aos seus próprios meios. Às transferências do Estado central. Às receitas próprias. À capacidade que tiveram, ou não, de construir uma base económica local que sustente o concelho e os serviços que este tem obrigação de prestar.

Se os investimentos feitos agora não gerarem actividade económica, não atraírem empresas, não fixarem população, não criarem condições para que o concelho cresça, então o dia em que os fundos acabam será também o dia em que os problemas se tornam insolúveis. Não haverá dinheiro para manter o que foi construído. Não haverá margem para o serviço social que o município tem de garantir. Haverá apenas estruturas a degradar e promessas por cumprir.

Sem critério e sem alinhamento de incentivos, o desfecho é uma consequência, não uma surpresa. O investimento vai acumulando sem sustentabilidade, a despesa vai crescendo sem retorno, e surgem os sinais conhecidos: dificuldade em manter o que já existe, degradação do essencial, pressão crescente sobre os orçamentos.

Em Lousada, como no país, fomos habituados a uma forma de governar orientada para o anúncio, para a obra visível, para o ciclo político. Fazer agora, resolver depois. O problema é que o “depois” não desaparece. Vai acumulando. E quando chega, já não há fundos extraordinários. Há apenas escolhas que não foram feitas a tempo.

As pessoas não vivem de inaugurações. Vivem de escolas que funcionam, de estradas em condições, de serviços que respondem. E vivem, acima de tudo, num concelho que precisa de ter futuro.

O PRR pode ser uma oportunidade única. Mas só o será se for tratado como o que é: não uma dádiva sem consequências, mas a última grande janela de investimento de que dispomos. Usá-la bem significa decidir não pelo que é mais visível, mas pelo que é mais útil. Não pelo que rende hoje eleitoralmente, mas pelo que sustenta o concelho daqui a dez ou vinte anos.

Porque construir é fácil. Difícil é tudo o que vem depois. E o depois, desta vez, está mesmo a chegar.

Há uma ideia silenciosa, mas profundamente enraizada, que molda o comportamento da nossa sociedade: a de que errar é falhar. E que falhar deve ser evitado a todo o custo. Não é uma abstracção. É algo que se sente no dia a dia, nas pequenas decisões, na forma como trabalhamos, naquilo que tentamos, ou que deixamos de tentar.

Basta olhar para exemplos simples. Um erro no preenchimento da declaração de IRS resulta numa multa. Um prazo de pagamento falhado, mesmo por distração, gera penalizações automáticas. Um trabalhador independente que se engana numa obrigação declarativa é sancionado, mesmo sem intenção. Um pequeno erro administrativo transforma-se rapidamente num custo. Estes episódios não são exceção, mas sim a regra. E revelam um padrão: o sistema não distingue, na prática, entre erro honesto e comportamento negligente.

Mas o impacto disto vai muito além da relação com o Estado. Este modelo de incentivos infiltra-se em toda a sociedade, incluindo no mundo do trabalho. Quantas vezes alguém tem uma ideia para melhorar um processo, mas prefere não arriscar? Quantas vezes um trabalhador evita experimentar uma abordagem diferente porque “se corre mal, a responsabilidade é minha”? Quantas vezes se faz apenas o mínimo necessário, não por falta de capacidade, mas por falta de segurança para ir mais longe?

Quando o erro é penalizado de forma desproporcionada, o comportamento racional é evitar o risco. E quando evitamos o risco, evitamos também a inovação. As empresas deixam de evoluir ao ritmo que poderiam, não porque lhes falte talento, mas porque os seus próprios colaboradores aprenderam a não sair da linha. Cria-se um ambiente onde cumprir é mais valorizado do que melhorar, onde não falhar é mais importante do que tentar fazer melhor.

Isto é o oposto de uma cultura de progresso.

As sociedades que crescem são aquelas que alinham os incentivos com a ambição. Onde tentar é valorizado, mesmo quando não corre bem. Onde o erro é visto como parte do processo de aprendizagem, e não como um motivo imediato de penalização. Onde há espaço para experimentar, ajustar e evoluir. Não se trata de aceitar o incumprimento, mas de saber distinguir entre quem erra a tentar fazer melhor e quem falha por desleixo ou má-fé.

Do ponto de vista liberal, como tantas vezes sublinhado pelo Carlos Guimarães Pinto, os incentivos são centrais para explicar comportamentos. As pessoas respondem aos incentivos que lhes são dados. Se os incentivos penalizam o risco e recompensam a passividade, teremos uma sociedade mais conformista. Se, pelo contrário, recompensarmos a iniciativa e aceitarmos o erro como parte do caminho, teremos uma sociedade mais dinâmica, mais inovadora e mais capaz.

Hoje, demasiadas vezes, os incentivos estão desalinhados. E isso paga-se caro: em produtividade, em inovação, em crescimento, mas também em realização pessoal. Porque trabalhar sem margem para arriscar é, no fundo, trabalhar aquém do próprio potencial.

Mas pior que isto é o exemplo que deixamos às gerações mais novas.

Se os nossos jovens crescem a ver uma sociedade onde errar é castigado e arriscar é desaconselhado, que tipo de adultos estamos a formar? Adultos cautelosos, sim, mas também resignados. Adultos que preferem não tentar a correr o risco de falhar. Adultos que se habituam à mediania porque o sistema lhes ensinou que sair dela tem custos.

Não pode ser esse o legado.

Temos a responsabilidade de transmitir uma cultura diferente: uma cultura de iniciativa, de responsabilidade, de risco consciente e de recompensa pelo mérito. Uma cultura onde errar não é o fim, mas parte do caminho. Onde tentar é valorizado. Onde crescer, quer individual quer coletivamente, é possível porque os incentivos estão alinhados com esse objetivo.

No fundo, a escolha que temos pela frente é simples, mas decisiva: continuar a alimentar um modelo que promove o medo e o conformismo, ou construir um ambiente que liberta o potencial das pessoas.

Só o segundo caminho nos permite aspirar, de forma séria, a ser mais e melhor.

As imagens das últimas semanas são duras: ruas transformadas em rios, casas invadidas pela água, negócios a contar prejuízos, famílias a tentar salvar o que resta. Em momentos assim, percebemos rapidamente que o primeiro socorro não vem de um gabinete em Lisboa. Vem do vizinho.

Vieram os tractores dos agricultores, as carrinhas das associações, os voluntários das coletividades, os bombeiros exaustos, mas firmes, as juntas de freguesia a improvisar soluções com os meios disponíveis. Veio a sociedade civil, organizada, solidária, eficaz. E veio depressa.

Veio não só com o tijolo e a pá de pedreiro, mas também com a ferramenta tecnológica que permite organizar essa mesma ajuda. Plataformas como o sosleiria.pt, criadas por cidadãos anónimos, fizeram em dias o que o Estado nem sequer conseguiu estruturar. Sem comissões, sem grupos de trabalho, sem apresentações em PowerPoint. Apenas acção.

Sempre que enfrentamos catástrofes naturais, a resposta mais rápida e mais ajustada nasce da proximidade. Porque quem está no terreno conhece as ruas, sabe onde vivem os idosos isolados, percebe quais as pontes críticas, identifica as famílias mais vulneráveis. A proximidade não é apenas geográfica. É conhecimento prático acumulado.

E, no entanto, continuamos presos a um modelo excessivamente centralizado, onde decisões estratégicas sobre proteção civil, ordenamento do território ou investimento em prevenção são tomadas a centenas de quilómetros da realidade concreta. O resultado é o de sempre: planos desenhados em abstrato, respostas tardias, burocracia quando precisamos de acção.

A segurança de pessoas e bens é, a par da saúde e da educação, um dos pilares fundamentais do Estado. Não é acessório nem opcional. Quando falha, falha no essencial. E nas últimas semanas voltou a ficar claro que o Estado central, pesado e distante, revelou limitações sérias na antecipação, na coordenação e na rapidez de resposta.

Mas há um problema mais profundo: descentralizar implica perder poder. E o Estado, por natureza, raramente abdica voluntariamente de poder. Prefere concentrar, regulamentar, supervisionar, autorizar. Prefere criar estruturas intermédias a confiar diretamente nas comunidades.

Temos CCDR, temos Comunidades Intermunicipais, temos autarquias, temos juntas de freguesia. Precisamos mesmo de mais organismos? Ou precisamos de dar competências reais e meios financeiros a quem já existe e já está no terreno?

O maior desafio não é criar novas organizações. É simplificar. É cortar camadas. É confiar. É permitir que municípios e freguesias decidam e executem em matéria de prevenção, gestão de riscos e proteção civil sem depender de validações sucessivas de entidades distantes. É aceitar que ceder poder não é perder autoridade, mas sim ganhar eficácia.

Portugal não é apenas o seu aparelho estatal. Portugal são as associações humanitárias, as IPSS, os clubes, os escuteiros, os grupos informais de voluntários, as empresas locais que oferecem maquinaria e recursos sem perguntar quem paga. É a sociedade civil que não espera por despacho para agir.

Uma política de proximidade não é apenas estar perto das pessoas em campanha eleitoral. É desenhar instituições que confiem nas comunidades e lhes dêem meios para agir. É reconhecer que a escala local não é um problema, mas uma vantagem estratégica.

As cheias vão passar. As manchetes também. Os incêndios aproximam-se. O que não pode passar é a lição: quando o Estado central falha, a comunidade responde. Se queremos populações efetivamente protegidas, o Governo tem de ter a coragem de ceder poder, simplificar estruturas e confiar mais em quem está no terreno.

Porque quando a água sobe, ou quando o fogo avança, é a comunidade que fica. E é nela que o país verdadeiramente assenta, mesmo com lama até ao joelho.

Hugo Ferreira

A primeira volta das eleições presidenciais terminou. O candidato em quem votei, João Cotrim de Figueiredo, não passou à segunda volta. O resultado aceita-se com serenidade democrática. Mas aceitar o resultado não implica calar o juízo, nem suspender o espírito crítico.

A segunda volta apresenta agora duas candidaturas que não entusiasmam, não mobilizam e não oferecem um verdadeiro projeto de futuro. 

De um lado, um candidato socialista que encarna a continuidade política do estado atual do país. Um percurso sem marca reformista, sem ambição transformadora e sem capacidade de agregar uma sociedade cansada. O discurso é conhecido, as promessas repetem-se e as soluções resumem-se à gestão do presente. Não há rasgo, não há visão, não há resposta para os problemas estruturais que se arrastam há décadas. Há apenas a normalização do marasmo.

Do outro lado, surge uma candidatura construída sobre o confronto permanente. Um discurso que vive da provocação, da simplificação abusiva de problemas complexos e da exploração constante do descontentamento. Onde deveria haver propostas consistentes, há ruído. Onde deveria haver sentido institucional, há instinto. Não se apresenta um caminho credível para o país; apresenta-se um espetáculo político assente na divisão.

Para mim isto é claro: as duas propostas agora em disputa são politicamente pobres. Uma limita-se a perpetuar o que já falhou. A outra transforma a indignação em método, sem oferecer soluções sérias ou sustentáveis.

Foi precisamente por isso que votei em João Cotrim de Figueiredo. Porque apresentou uma alternativa clara: mais liberdade individual, mais responsabilidade política, um Estado mais focado e exigente, menos dependência e menos burocracia. Falou de reformas estruturais, de crescimento económico, de mérito e de confiança nos cidadãos. Ideias que não chegaram à segunda volta, mas que continuam a ser as únicas capazes de romper com a estagnação instalada.

Convém também ser claro noutro ponto: não tenho simpatia por qualquer dos candidatos agora em disputa. O meu voto, qualquer que venha a ser, não será de adesão, nem de entusiasmo. Será, quando muito, um ato consciente, crítico e sem ilusões.

A decisão que agora se coloca aos portugueses é difícil, mas inevitável. Abster-se ou votar em branco pode parecer um gesto de protesto. Na prática, é apenas abdicar de decidir quando a decisão exige mais responsabilidade.

A democracia não vive de entusiasmos permanentes. Vive de lucidez. E, por vezes, de escolhas feitas com desconforto, mas com dignidade.

Votar, nesta segunda volta, não será premiar ideias vencedoras. Será, para muitos, um voto defensivo. Um voto para proteger princípios fundamentais: liberdade, pluralismo, equilíbrio institucional, num contexto em que nenhuma opção os representa plenamente.

Não é inspirador. Mas é necessário.
E desistir de escolher é sempre a pior escolha.

Artigo publicado no Jornal O Louzadense nº 160

Luís Neves

A 17 de Setembro do corrente ano, no longínquo Japão, Isaac Nader sagrava-se Campeão do Mundo dos 1500 metros, uma vitória tão brilhante como inesperada!

Mas será que existe alguma semelhança entre o Campeonato Mundo de atletismo e a corrida Presidencial? Qual o paralelismo entre Isaac Nader e Cotrim Figueiredo? Surpreendentemente, há mais pontos em comum do que imagina, ora vejamos:

Recuando alguns meses atrás, Cotrim como Nader, é por todos considerado o underdog desta corrida. Em nenhuma casa de apostas era apontado como favorito à vitória, pelo contrário, existia já um vencedor antecipado (por muitos vaticinado logo à 1ª volta), o Almirante Gouveia e Melo. Ora, antes do início da corrida Presidencial, para além do trabalho altamente meritório na guerra contra a Covid 19 (para o qual foi treinado toda a vida), pouco ou nada se lhe conhece. Entretanto é dado o tiro de partida e logo nos primeiros metros, já muitos desconfiam da capacidade física do Almirante para a vencer, para além de umas generalidades não se percebe qual a sua visão para transformar Portugal.

Na metade esquerda do pelotão, seguem os candidatos António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto, lutam pela sobrevivência, tentando aguentar o ritmo do pelotão e com um único foco em mente, não deixar fugir o seu eleitorado.

No extremo oposto do pelotão, segue um dos candidatos às medalhas – André Ventura, corre de forma ziguezagueante e com uma passada barulhenta, representa os revoltados, os descrentes de um país constantemente adiado e mesmo tratando-se de uma minoria, são eleitores que votam, pelo que devemos contar com ele para uma eventual segunda volta.

António Seguro e Marques Mendes são outros nomes apontados ao pódio, desde logo porque são apoiados pelos historicamente maiores partidos, são dois atletas experimentados, habituados a lidar com a imprensa, tentam agradar a tudo e a todos, gostam do que é bom e não gostam do que é mau, todavia são incapazes de assumir posição clara sobre coisa alguma.

Hoje, com a corrida perfeitamente lançada, Cotrim segue entre a 4ª e 5ª posição e tal como o atleta algarvio, tem uma estratégia clara para o desafio que se avizinha, com coragem diz ao que vem, demonstra uma visão moderna e transformadora para o País, não se refugia nas posições politicamente corretas (exemplo disso foi o facto de assumir publicamente que promulgaria a Reforma Laboral). Cotrim Figueiredo olha para o País como uma pista de Tartan, onde as curvas lentas são resultado da falta de reformas, de um Estado pesado e burocrático que inevitavelmente nos conduz para o final do pelotão europeu. Com o desenrolar da corrida, o seu ritmo é cada vez mais forte, o apoio na bancada também e neste momento, já é apontado como a grande surpresa desta corrida presidencial.

A reta final aproxima-se e tal como nos 1500 metros, este é o momento decisivo da corrida, apenas cinco atletas permanecem com hipóteses reais de vencer. Será que Cotrim Figueiredo, tal como Nader no Japão, conseguirá ultrapassar todos os adversários até à linha de meta? Eu consigo IMAGINAR e tu?