Hugo Ferreira

A primeira volta das eleições presidenciais terminou. O candidato em quem votei, João Cotrim de Figueiredo, não passou à segunda volta. O resultado aceita-se com serenidade democrática. Mas aceitar o resultado não implica calar o juízo, nem suspender o espírito crítico.

A segunda volta apresenta agora duas candidaturas que não entusiasmam, não mobilizam e não oferecem um verdadeiro projeto de futuro. 

De um lado, um candidato socialista que encarna a continuidade política do estado atual do país. Um percurso sem marca reformista, sem ambição transformadora e sem capacidade de agregar uma sociedade cansada. O discurso é conhecido, as promessas repetem-se e as soluções resumem-se à gestão do presente. Não há rasgo, não há visão, não há resposta para os problemas estruturais que se arrastam há décadas. Há apenas a normalização do marasmo.

Do outro lado, surge uma candidatura construída sobre o confronto permanente. Um discurso que vive da provocação, da simplificação abusiva de problemas complexos e da exploração constante do descontentamento. Onde deveria haver propostas consistentes, há ruído. Onde deveria haver sentido institucional, há instinto. Não se apresenta um caminho credível para o país; apresenta-se um espetáculo político assente na divisão.

Para mim isto é claro: as duas propostas agora em disputa são politicamente pobres. Uma limita-se a perpetuar o que já falhou. A outra transforma a indignação em método, sem oferecer soluções sérias ou sustentáveis.

Foi precisamente por isso que votei em João Cotrim de Figueiredo. Porque apresentou uma alternativa clara: mais liberdade individual, mais responsabilidade política, um Estado mais focado e exigente, menos dependência e menos burocracia. Falou de reformas estruturais, de crescimento económico, de mérito e de confiança nos cidadãos. Ideias que não chegaram à segunda volta, mas que continuam a ser as únicas capazes de romper com a estagnação instalada.

Convém também ser claro noutro ponto: não tenho simpatia por qualquer dos candidatos agora em disputa. O meu voto, qualquer que venha a ser, não será de adesão, nem de entusiasmo. Será, quando muito, um ato consciente, crítico e sem ilusões.

A decisão que agora se coloca aos portugueses é difícil, mas inevitável. Abster-se ou votar em branco pode parecer um gesto de protesto. Na prática, é apenas abdicar de decidir quando a decisão exige mais responsabilidade.

A democracia não vive de entusiasmos permanentes. Vive de lucidez. E, por vezes, de escolhas feitas com desconforto, mas com dignidade.

Votar, nesta segunda volta, não será premiar ideias vencedoras. Será, para muitos, um voto defensivo. Um voto para proteger princípios fundamentais: liberdade, pluralismo, equilíbrio institucional, num contexto em que nenhuma opção os representa plenamente.

Não é inspirador. Mas é necessário.
E desistir de escolher é sempre a pior escolha.

Artigo publicado no Jornal O Louzadense nº 160